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1 de dez. de 2023

Discurso de Paraninfa (Profa. Adriana Ferro)


 E hoje é o dia da Colação de grau dos meus primeiros afilhados do curso de Pedagogia. Ser paraninfa é uma honra e uma responsabilidade muito grande.

Estou deixando registrado aqui o discurso que realizei na solenidade:

BOA NOITE A TODO/AS,

Queria inicialmente agradecer a alegria que me concederam ao ser escolhida como paraninfa da turma de vocês. E ser paraninfa, para mim, é uma missão que tomo de forma muito cuidadosa, porque etimologicamente, este termo, Paraninfo,  surgiu a partir do grego paránymphos, em que significa "ao lado" e nymphé quer dizer "noiva", ou seja, antigamente a palavra paraninfo era utilizada com o sentido de "padrinho ou testemunha de casamento", e se tem alguém que escolhido com muito zelo são os nossos padrinhos e madrinhas. E ser madrinha de vocês me deixou com uma grande responsabilidade, porque é aquele que aconselha, que zela, que cuida.
E nesses últimos tempos, assumi meio inconscientemente essa missão de cuidado, pensando com carinho em como minimizar os danos que a falta de professores e a pandemia gerou para a turma. Sei que não foi fácil, ver chegar a data esperada para a colação de grau e ela não acontecer por conta de acontecimentos que fugiam do controle de vocês. Mas, mesmo em meio a tantos obstáculos, encontrei uma turma resiliente, que teve que passar pelos desafios e saiu forjada no fogo e na tempestade. E vocês foram bambus que vergam, mas não quebram, ou seja adaptam-se aos intempéries e voltam a sua forma inicial após a ventania passar.
Foram mais de 4 anos e meio, como era o projeto inicial, foram quase 5 anos e meio. Mas chegamos nesse momento, e agora é tempo de colher com risos o que foi plantado entre lágrimas. Parabéns queridos!
O curso de Licenciatura de Pedagogia da Uespi de Piripiri, entrega para a comunidade do meio norte do nosso Estado e para a Mesorregião do Noroeste Cearense, esses valorosos Pedagogos e Pedagogas. Durante sua formação inicial, nas experiências proporcionadas pelo curso, muito mais do teorias educacionais foram discutidas, mas valores, discussões, compreensão de mundo e de pessoas, vivências de experiências docentes e desenvolvimento de habilidades socioemocionais foram trazidas para a compor todo o arcabouço de suas habilidades docentes.
E como de costume, afinal, sou uma contadora de histórias, eu vou refletindo sobre esse percurso todo até aqui e o momento que estamos vivendo agora e histórias vão chegando a minha memória. Falei há pouco do bambu que enverga mas não quebra, e agora eu me lembro da história dos 03 pedreiros. Alguns de vocês já me ouviram contar, mas vou pedir licença para contar novamente, nesse momento tão propício.
Era uma vez… Um senhor que estava caminhando por uma rua quando se deparou com uma construção, e viu algumas pessoas trabalhando concentradas em seus afazeres. Então o senhor chegou próximo ao primeiro pedreiro que estava suado, de baixo do sol de nossa terra, e perguntou a ele: "olá, jovem, o que você está fazendo?", o rapaz olhou pra ele, meio que aborrecido pelo senhor não entender algo que pra ele era tão claro: "Não está, vendo?", disse, "estou amassando cimento!". O curioso senhor, aproximou-se então de um outro trabalhador, e fez a mesma pergunta: "Olá, o que você está fazendo aí?", o pedreiro parou um pouco de amassar o cimento, que era a sua atividade naquele momento, colocou a enxada no chão e apoiando-se nela disse: "Ah, eu estou construindo uma parede!", o senhor sorriu com aquela resposta, e saiu para falar com um terceiro jovem, que também amassava o cimento, e novamente fez a pergunta: "O que você está fazendo aí, meu jovem?". Dessa vez, o interlocutor, além de parar e apoiar-se na enxada, abriu um largo sorriso, e apontou para a construção que já se desenhava em meio a paredes e andaimes, e apontando falou: "Olhe, não estás vendo? Estou a construir uma linda catedral!"
Diante dessa história eu fiz uma reflexão, recentemente, sobre a romantização da exaustão docente e queria também trazer para vocês:
Desde muito tempo se propaga a ideia de  que tem se ensinar por amor. Eu, particularmente, sou frontalmente contra essa "verdade" alardeada por aí.  Eu acredito, na verdade, que tem que se ensinar com amor.
E tem diferença,  professora? (Vocês poderiam me questionar) Tem sim! Uma enorme diferença.
Quando se fala de ensinar por amor, percebe-se a docência como sacerdócio,  com sacrifícios, que os professores têm que trabalhar muito, sem dia de descanso, em qualquer condição. E o professor que impõe algum tipo de limite, como descansar no fim de semana e desligar-se as 22h é visto como um mau professor,  porque ele tem que estar disponível sete dias por semana, as 24h horas do dia.
Já quando se ensina com amor, percebe-se que a docência deve ser realizada com excelência,  mas ela é um trabalho, uma profissão, e apenas uma das dimensões da vida do professor,  que tem família, amigos e horas para si.
Então pensando no trabalho pedagógico que cada um de vocês irão desempenhar, na condição de pedagogo, seja dentro ou fora da escola, mas tendo a educação como objeto de sua profissão, façam o trabalho com amor, vislumbrem as catedrais que estão construindo, percebam as mudanças que o trabalho ordinário, silencioso e diário trará para os que tiverem o privilégio de vivenciar o labor, mas não esqueçam que ser pedagogo faz parte da sua identidade mas não lhe define por completo, além disso vocês tem família, comunidade, amigos, e a inexorável obrigação de ser feliz nesse mundo tão caótico.
Para encerrar minhas palavras volto a reflexão sobre a missão de ser madrinha, paraninfa de vocês, e volto também a agradecer tamanha confiança em mim, para falar pela última vez a vocês na condição de formandos, porque já já vocês serão formados. Assim, me permitam realizar um ato muito própria das madrinhas, ministrar benção. E para isso vou fazer uso da benção Araonica, que está na Bilbia, no livro dos Números.
O Senhor te abençoe e te guarde;
Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti e te conceda graça;
O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê paz.
Sejam felizes anjos meus, construam lindas catedrais, porque eu estou vendo as catedrais que eu ajudei a construir, amassando todos os dias o meu cimento.
Muito obrigada!


30 de nov. de 2023

Discurso de Descerramento de Placa (Professora Adriana Ferro)

 Uma das alegrias que tenho na docência superior é participar da comemorações de formatura dos alunos, após cumprirem suas atividades acadêmicas. E a turma que concluiu agora em 2023.1 me deu a alegria de discursar, tanto na sua solenidade de colação, como paraninfa, como no descerramento da placa.


E deixo vocês com as minhas palavras para a solenidade de hoje (30/11/2023), que será o descerramento:


Boa noite!
 
Muito feliz pela presença de todos vocês nesse momento de congraçamento e alegria.
Queria cumprimentar a todos e a cada um, mas especialmente gostaria de conversar com os meus queridos formandos.
Hoje estamos aqui para o descerramento da sua placa de formatura.
Em tempos de implantação de placas de formaturas digitais, é uma alegria poder ainda vivenciar o momento de desvelar fisicamente o marco da passagem de cada um de vocês pela instituição.
Fico muito feliz ao andar pelos corredores da UESPI e presenciar outros alunos da parados lendo as placas, buscando o nome dos seus conhecidos, apontando um egresso que conhece e, normalmente, com um sorriso no rosto, mas também é com maior alegria que eu mesma passo nos corredores e encontro meus ex-alunos eternizados em suas placas.
A universidade é um momento na vida profissional de vocês como pedagogos, um primeiro momento, por isso mesmo chamado de formação inicial. (não tem aquela história de que a primeira impressão é a que fica?, que o primeiro amor é inesquecível?, as vezes é difícil, mas mesmo assim é o primeiro...)
E essa formação inicial acompanhará vocês de forma indelével. Para sempre vocês vão dizer, nos espaços que vivenciarem: “sou egresso da UESPI”, ou ainda, “sou filho da UESPI” (em outras palavras a UESPI é casa-mãe de formação, de cada um de vocês).
E assim como nossos pais e mães, a UESPI tem seus problemas, mas também assim como aqueles que nos amam, ela se força, nas pessoas dos seus gestores, funcionários e professores, para oferecer o melhor dentro de suas próprias limitações.
E nesse momento uma história vai se criando no meu imaginário, quando olho para cada um vocês e vejo o quanto construíram até aqui.
Imaginei um passarinho que está no ninho. Durante muito tempo, desde que saiu do seu ovo, está acolhido em um pequeno ninho, em cima de uma grande árvore, o ninho nem sempre foi confortável: teve vento, teve chuva, teve sol escaldante... Mas mesmo diante de intempéries, e olhe que nasceu em um tempo cheio de desafios, ele sabia que estava em seu ninho, de certa forma era uma segurança. Ao mesmo tempo tinha uma grande vontade de conhecer o mundo, de voar alto, de fazer sua própria história de grandes aventuras. Então, um belo dia, disseram-lhe: pronto, seu tempo aqui chegou ao fim. Mesmo o passarinho já tendo tido alguns voos antes, já tendo visto parte do mundo pertinho do seu ninho, o medo de estar por sua conta e risco gerava um frio na barriga. Mas esse momento tinha sido muito sonhado, muito desejado, muito querido, e o passarinho, ficou na beirinha do ninho, olhou para trás, pensou em tanto vivido, tantos dias bons e outros tantos não tão bons, deu um grande suspiro, abriu suas asas, e ao abri-las deu-se conta de que elas estavam grandes, emplumadas, fortes. Deu um grande suspiro, encheu seus pulmões de ar, e aventurou um passo no infinito, alçando o voo mais longo até então. Aquele pássaro voou pelo universo e às vezes passava por perto do seu ninho, sentia saudade (mesmo antes achando que não ia sentir) e relembrava as aventuras até então vividas, percebendo que seu processo de formação o acompanhava mundo a fora.
Queridos, a árvore é a UESPI, o ninho é nosso curso de pedagogia, todo esse tempo foi desafiador, e a UESPI os reteve mais do que deveria, mas agora é hora de vocês estenderem as asas e voarem, é hora de deixar o ninho, e esse é o convite que faço a vocês voem, construam histórias lindas, e de vez em quando passem por aqui, venham nos dá notícias de suas histórias, sejam felizes, meus anjos.


4 de nov. de 2022

 


O CLUBE do imperador. Direção: Michael Hoffman. Los Angeles: Universal, 2002. DVD.
RESENHA

Adriana Borges Ferro Moura 

O Clube do Imperador, filme lançado em 2002, tem como cenário o colégio St. Benedict's, uma escola exclusiva para rapazes que possui como alunos os filhos da nata da sociedade americana. O início da história se passa no ano de 1976 e começa em uma sala de aula da disciplina História Greco Romana, ministrada pelo professor William Hundert ( Kevin Kline). 
Hundert demonstra ser um professor apaixonado pela docência que acredita que pode mudar seus alunos por meio do ensino. Em sua sala de aula há iconografias de vários personagens de suas aulas e ele dedica-se a explicar a seus alunos que o “ O caráter de um homem é seu destino”, fazendo uso dos exemplos dos clássicos para reforçar suas lições de história e de moral.

O enredo do filme começa a se desenvolver realmente quando um aluno chega a sala de aula de Hundert, Sedgewick Bell filho de um importante Senador. Ele apresenta um comportamento desafiador, com pouco apego às regras da instituição e à autoridade do professor. Inicialmente, o professor ficou paralisado diante do aluno e até apresentou um comportamento hostil diante da indisciplina que ele apresentava.

Mas, ao chegar o momento do concurso do Senhor Júlio César, Hundert percebeu a oportunidade de desafiar a inteligência de Sedgewick e assim conquistar sua empatia, para tanto forneceu-lhe um livro de sua estima, e acompanhou com contentamento o crescimento das notas dele.

No momento de determinar os três finalistas, entusiasmado pela evolução nas notas de Sedgewick, o professor Hundert falseia a nota que deveria atribuir-lhe para que possa compor o trio finalista, no entanto com esta ação ele pretere Martin Blythe, aluno brilhante que almejava participar do concurso para se tornar o sr. Júlio César como seu pai tinha sido.

Durante o desafio final, Hundert percebe com pesar que seu aluno predileto está fraudando, e propõe uma questão que ele não poderia ter sem suas notas de “pesca”. Com isto, outro estudante, que de fato tinha conhecimento necessário para ganhar o concurso logra êxito. Neste ponto nos deparamos com a tristeza do professor diante da sensação de fracasso e da percepção que Bell voltava aos velhos hábitos, tanto que afirma que a tristeza era o sentimento que o invadia ao entregar-lhe o diploma. 

No entanto, é importante uma reflexão sobre o comportamento do professor e do aluno. Poderíamos compreender que o professor tinha um bom motivo para colocar um aluno na final em detrimento de outro, que suas intenções eram boas, mas é importante ressaltar que Bell também tinha seus motivos, sendo a aprovação paterna um deles. O professor com sua ação fraudulenta marcou definitivamente a vida de outro aluno, que não lhe tinha angariado a mesma empatia que Bell. Uma discussão ética perpassa neste momento do filme: Os fins justificam os meios? E o comportamento do professor não foi igualmente reprovável?

O tempo passou, o professor Hundert aposentou-se após ser preterido para a direção do colégio St. Benedict's para dar lugar ao professor James Ellerby, que pautou sua vida acadêmica para conseguir o cargo que naturalmente seria do professor Hundert. Vinte anos depois, já aposentado e casado com seu amor de toda a vida, Hundert recebeu uma proposta de Bell, agora um grande empresário, por meio de Ellerby, para um novo desafio do Sr. Júlio César, com seus ex-alunos.

Aceitou relutante, mas ao chegar ficou feliz ao rever todos os seus antigos pupilos e preparou-se para mediar o desafio, com a esperança que dessa vez o desfecho fosse diferente, que Bell houve se transformado em alguém ético, talvez até para aplacar sua própria culpa, na percepção de que tinha alcançado o seu fim. Mas não foi o que ocorreu, mais uma vez seu ex-aluno usou de fraude e ao final anunciou sua candidatura ao senado, demonstrando o real interesse da reunião, angariar apoio dos ex-colegas, agora influentes profissionais.


Diante deste comportamento, o professor tem uma conversa com Martin Blythe, e revela-lhe a fraude no primeiro concurso, informando-lhe que ele que deveria ser o concorrente naquela oportunidade. E o encontro final com seus alunos, faz Hundert compreender que seu fracasso com Bell não significava seu fracasso como professor, porque ele havia influenciado muitas vidas de forma positiva, isto determinou sua volta a sala de aula de St. Benedict's, agora uma escola bem diferente daquela de vinte anos atrás. E o desfecho que marca este pensamento é exatamente Blythe levando seu filho para a aula do seu antigo professor, com a percepção que apesar de tudo suas lições eram valiosas.



30 de out. de 2016

Ensinando cachorro a falar.

Durante as minhas leituras sobre docência e pesquisa deparei-me, várias vezes, com uma historinha, dessas que a autoria se perde na repetição, bem singela, mas que conduziu à muitas e produtivas reflexões. Vou contá-la para vocês.
Fonte: pixabay.com
Certo dia, um professor desenvolveu um grande método, ele descobriu uma forma de ensinar um cachorro a falar. Para demonstrar seu experimento, ele resolveu escreveu um livro e tomou para si um cachorrinho, ainda filhote, que iria ser a “cobaia” do seu método.
Foram longos quatro anos, entre o início da experiência e o momento em que finalmente a obra seria lançada e o mundo conheceria seu grande feito. Houve grande divulgação e uma pequena multidão se aglomerou no rol de entrada do salão onde haveria o lançamento do livro.
Os livros, para a venda e autógrafo, estavam lindamente organizados em formato de pirâmide, tudo pronto para o grande momento, todos muito ansiosos por aprender este método, pois queriam interagir mais com seus cachorrinhos em casa.
O professor chegou, como uma pequena celebridade, vestido como para um baile de gala e com a sua cobaia em uma cesta de vime ornada de forma muito caprichosa. Sentou-se e começou a autografar os livros, tendo sempre seu cachorrinho ao lado, que preguiçosamente dormia, sem se incomodar com o alvoroço ao seu entorno.
As pessoas começaram a ficar incomodadas, porque, afinal, elas queriam mesmo era ver o método em ação. E quando o professor se deu conta todos estavam entorno do cachorrinho e pediam, entre gracinhas, que ele falasse, que dissesse alguma coisa.
Foi quando finalmente um dos presentes perguntou: “Professor, o cachorrinho não fala nada, você não o ensinou a falar?”
O professor respirou profundamente e disse: “Eu ensinei, ele foi que não aprendeu!”

Esta história me remete sempre a alguns professores que pensam que sua tarefa termina quando ele recita o conteúdo em sala de aula, mas isto não é verdade, a missão do professor é muito maior, é alcançar o seu estudante, é trazer o conteúdo para próximo dele, é ser ponte.

7 de abr. de 2016

Um presente no dia dos Professores: Conselhos de Parini

Impressionou-me vivamente a narrativa de vida profissional do Professor de Língua Inglesa Jay Parini, que leciona no Middlebury College, em Vermont, no seu livro “A Arte de Ensinar”. Talvez a surpresa com a leitura agradável decorra do preço módico do livro, comprado em uma promoção, dessas de liquidação mesmo, mais pelo título do que por qualquer outro motivo. Mas a surpresa foi muito boa. Muitas de suas lições, com certeza, vão ser minhas companheiras daqui por diante. Aconselho a leitura, principalmente para os docentes, ou para aqueles que pretendem enveredar pelo universo da academia, e podem ter certeza que, de maneira nenhuma, será perda de tempo.
link da imagem: http://paulapopi.com/tag/maca/
Pensei inicialmente em falar, este mês em que comemoramos o dia do professor, das grandes dificuldades que os professores do ensino superior atravessam (tanto aqueles que atuam nas faculdades privadas, quanto aqueles que exercem a docência nas universidades públicas), e vejam que teríamos muito a discutir, porque as dificuldades não são poucas. Mas refreei este primeiro impulso porque o momento é de festa, mesmo que também seja de reflexão. Retomei a leitura da obra de Parini, detive-me em um capítulo intitulado “Carta a Um Jovem Professor”, em que o autor busca aconselhar aqueles que iniciam na profissão para facilitar-lhes o percurso da carreira, tanto que finda a carta dizendo: “Queria que alguém tivesse me enviado essa carta, e que a tivesse lido, há cerca de 30 anos. Teria facilitado um pouco a minha vida, então”, e por ocasião das comemorações que se avizinham, decidi refletir seus conselhos. E presentear os professores com as palavras deste velho professor. Vamos a Parini:

“Você tem que ensinar a partir da pessoa que você é”
Uma das principais ferramentas do professor é o autoconhecimento, precisamos saber quem somos, de onde falamos, quais nossas referências.  Gil (2010) enumera 27 papéis diferentes que o professor assume quando da realização de seu trabalho e um deles é ser “pessoa”, é ter consciência que possui valores e interesses que influenciam a sua atuação em sala de aula, e o autoconhecimento é essencial para que possa atender ao apelo do pedagogo americano Amos Bronson Alcott: “O verdadeiro professor defende os seus alunos contra a sua própria influência.” Para mim, pelo menos, o professor não devia querer que seus alunos pensem como ele, se ajustem às suas ideologias, mas ao contrário, deve incentivar o pluralismo e o respeito à divergência. Para tanto, é preciso que o professor realize uma imersão em si mesmo e tenha um controle muito consciente da sua forma de ser e pensar. Assim poderemos atender ao conselho de Parini: “seja você mesmo, porém crie em cima dessa noção, adicione a você mesmo, some a si mesmo, amplie-se”.

“Você deve levar o seu trabalho - tanto como professor quanto como erudito - a sério.”
O espaço do professor é bem maior que a sala de aula, somos professores 24 horas por dia. Tanto que, às vezes, nossos alunos confundem isto. Recentemente ouvi uma professora se queixando que um aluno lhe pedira seu telefone porque iria usar um feriado prolongado para se dedicar a seu Trabalho de Conclusão de Curso e queria ligar-lhe se tivesse qualquer dúvida, “será que eles não pensam que também temos que nos desligar um pouco?”. Nossos alunos nos veem tão parte da vida deles que avançam em terrenos que eles mesmos depois percebem que não deveriam ter adentrado.
Esse exemplo só demonstra que somos professores sempre e que precisamos nos preparar para tanto, do ponto de vista técnico (na área que ensinamos), do ponto de vista pedagógico (na área da docência), mas também considerando o fato de que somos percebidos por nossos alunos como pessoas eruditas, na melhor acepção da palavra, então temos que fazer jus a este status.
As nossas leituras devem nos levar a lugares em que seremos pioneiros, para que nossos alunos nos acompanhem e consigam sair da “Caverna” que o mundo moderno nos enclausura. Mas devemos tira-los da Caverna, convidá-los a sair, porque se nosso objetivo for tão somente fazer o anúncio da boa nova, poderemos cair no risco que Platão fala pela boca de Sócrates: “Assim, ele, por amor, voltaria à caverna a fim de libertar seus irmãos do julgo da ignorância e dos grilhões que os prendiam. Mas, quando volta, ele é recebido como um louco que não reconhece ou não mais se adapta à realidade que eles pensam ser a verdadeira: a realidade das sombras. E, então, eles o desprezariam...”

“O melhor caminho para conseguir que os alunos compareçam às suas aulas com verdadeiro sentido de compromisso é fazer da sala de aula um lugar onde boas coisas acontecem”
Este ensinamento de Parini me acompanha toda vez que penso na forma de organização de um conteúdo para trabalhar com meus alunos. É certo que nem sempre a aula é leve, muitos fatores interferem no nosso fazer docente, mas o esforço por fazer da sala de aula um espaço agradável é sempre bom. Cada professor desenvolve sua própria estratégia, mas eu adquiri, com o tempo, a habilidade de contar anedotas, narrar detalhes autobiográficos que envolvam o conteúdo da aula (mesmo que, no meu caso, tenha que trabalhar Direito Penal). Outro dia mesmo, a turma irrompia em gargalhadas quando discutia com eles o conceito e os tipos de Crime Impossível, uma aluna até falou: “Professora, como é que pode a gente rindo tanto de um assunto tão pesado.” Mas as coisas devem ser trabalhadas com leveza, porque tudo fica mais fácil de ser compreendido se não colocamos tantos complicadores.
Parini traz muitos outros conselhos em seu livro, e a riqueza de suas palavras devem ser partilhadas e vivenciadas por todos os professores, não só os iniciantes. E neste dia dos professores, em que os alunos lembram-se de nós com carinho, refletirem sobre nossa missão deve ser sempre nossa maior festa e este carinho nosso maior presente.
A todos os docentes um encantador “seu dia” e a nossos alunos, desejo sempre excelentes professores!

Referências:
GIL, Antonio Carlos. Didática do ensino superior. São Paulo: Atlas, 2010.
PARINI, Jay. A arte de ensinar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
PLATÃO. República. Rio de Janeiro: Editora Best Seller, 2002.

Publicado originalmente em:  http://www.parlatoriojuridico.com.br/parlatoriojuridico/pagina/89

21 de ago. de 2015

O Professor de Direito a Procura de um Caminho: Conversando com Alice e o Gato.

Ao receber o convite de conversar um pouco sobre ensino jurídico, fiquei a pensar por onde começaria meu diálogo com vocês. Muitas ideias surgiram, o assunto me é fascinante porque diz muito de mim. E quando cheguei a este ponto, de compreender que vou escrever um pouco sobre mim, sobre minha realidade, resolvi começar falando do professor de Direito, mas não um discurso longo e cheio de receitas infalíveis de como ser um bom professor (não acredito muito nestas fórmulas milagrosas), na verdade queria contar um pouco do meu próprio enleio com a profissão que escolhi para minha vida.
Percorrendo o caminho da docência jurídica a quase duas décadas ainda me encontro com o mesmo espanto infantil dos primeiros tempos, como se estivesse avançando em um terreno desconhecido e cheio de novas experiências. O assombro que me invade leva-me a lembrar  de um trecho do livro de Lewis Carrol, Alice no País das Maravilhas. Logo após cair na toca do Coelho, Alice depara-se com personagem muito interessante, o Gato, e o diálogo que se segue entre os dois me permite contemplar o ensino jurídico, em especial o professor de Direito, por um prisma diferente.
O primeiro momento que destaco é quando Alice se encontra com o Gato, e ela está perdida, à procura de um caminho, então se segue o diálogo iniciado por Alice:

"O senhor poderia me dizer, por favor, qual o caminho que devo tomar para sair daqui?"
"Isso depende muito de para onde você quer ir", respondeu o Gato.
"Não me importo muito para onde...", retrucou Alice.
"Então não importa o caminho que você escolha", disse o Gato.

A docência é uma atividade eivada de desafios, seja pelo ineditismo presente em todas as aulas, seja pela peculiaridade de cada turma, seja pela exposição do professor diante de seus alunos, situações que concorrem para que os que a exercem se apaixonem sempre mais por essa atividade que se pode recomeçar todo semestre, cotidianamente. Recomeçar, aliás, é intrínseco ao labor profissional do professor, e este recomeço, em formato renovado, o ajuda a refletir sobre a mobilização dos seus conhecimentos docentes.
Toda profissão exige conhecimentos específicos, e o que diferencia o professor dos demais profissionais é o saber ensinar, que se revela na capacidade de adaptação do conteúdo disciplinar, tornando-o mais acessível aos alunos. Neste caso, o professor é uma ponte para o aprendizado, encurtando distâncias, favorecendo o estudo. Assim, compreendo que a especificidade da profissão docente está no conhecimento pedagógico e que a profissionalização do professor está ligada, diretamente, à prática profissional.
O perfil do professor de Direito está em mudança, porque o ensino jurídico está mudando, novos e variados desafios esperam pelos profissionais do Direito que se aventuram na sala de aula. Mas estes professores precisam saber qual caminho tomar, onde eles querem chegar, para que a escolha do percurso profissional não seja aleatória, mas seja consciente.
Avançando na leitura da aventura de Alice, ainda em sua conversa com o Gato, e buscando o trajeto a realizar, este lhe oferece dois caminhos: um que leva a casa do Chapeleiro e outro que a fará encontrar a Lebre de Março, mas antes, que ela possa decidir, o Gato alerta de que ambos são loucos. Alice, então, afirma que não gosta de loucos e escuta espantada, que todos são loucos inclusive ela, e diante da pergunta de como tem tanta certeza de que ela é louca, o Gato arremata:

"Você deve ser", disse o Gato, "Senão não teria vindo para cá."

Diante desta observação do Gato, novamente volto ao professor de Direito. Devemos ser todos loucos, porque senão não teríamos nos aventurado em uma empreitada tão complexa. E muito mais complexa para nós, porque não somos preparados para enfrentar a docência, muitas vezes a intuição é a única ferramenta que alguns professores de Direito utilizam no manejo de sua sala de aula.
Os conhecimentos dos professores de direito, pelas características que estes possuem, são produzidos de forma bastante idiossincrática e situacional, advém de sua atuação profissional e trazem marcas do vivido dentro e fora da sala de aula, antes e durante o exercício da docência. E mesmo considerando que essas características não são de todo desfavoráveis ao professor, porque lhe permite um trânsito que só a experiência trás, também compreendo que o docente precisa formar-se para ser professor, como o faz para a advocacia, para o exercício da judicatura ou de qualquer outra carreira jurídica.
Até porque, o professor de Direito, ao entrar em sua sala de aula, precisa despir a toga ou a beca, e reconhecer-se como professor, uma realidade que contempla aspectos que não são encontrados na prática forense cotidiana. E o diálogo existente na relação entre professor e aluno, pouco se assemelha com a forma de agir e se relacionar dos profissionais do Direito no seu labor cotidiano, por isto que compreendo, que mesmo diante da loucura de assumir uma sala de aula, o professor precisa buscar se formar para a atividade que se propõe exercer.
É preciso então, que os professores e as instituições de ensino superior tracem metas de formação para alcançar os conhecimentos necessários para sua atuação na docência, senão, estará sempre a procura de caminhos sem saber onde querem chegar. Todavia, as palavras do Gato quando Alice se inquieta, sem saber se chegará ao seu destino, são verdadeiras: "Oh, você pode ter certeza que vai chegar", disse o Gato, "se você caminhar bastante."

Publicado originalmente em: http://www.parlatoriojuridico.com.br/parlatoriojuridico/pagina/38

9 de jan. de 2012

Planejar é preciso

                              "Educar é ser um artesão da personalidade, um poeta
                                                da inteligência, um semeador de idéias”
                                                         Augusto Cury

A atividade de planejar, muitas vezes encontra muita resistência por parte dos professores, e muitos são os motivos para tanto. Alguns acham esta atividade laboriosa, outros entendem como algo complexo, e outros ainda entendem como uma perda do tempo que deveria ser dedicado ao ensino, à pesquisa ou mesmo à extensão.
A atividade de planejar, no entanto, deve ser pensada como um tempo precioso de traçar rotas para alcançar o objetivo maior do trabalho docente que é a aprendizagem dos seus alunos. É certo que os alunos é que aprendem, principalmente no ensino superior, onde o marco do ensino é a autonomia discente, mas também é certo que o professor tem um papel muito importante no alcance do conteúdo, como aquele que organiza o conteúdo tornando de mais fácil assimilação por seus alunos.
Pensemos na atividade de planejar como um momento de traçar rotas para evitarmos andar em círculos.
Mas o que é planejamento mesmo?

"Planejar é um momento de reflexão sobre a ação, é um momento de PENSAR, para melhor AGIR. É um processo no qual deve ser levado em consideração a realidade concreta e o que nela queremos mudar/transformar para melhor. Para isto é preciso ter uma visão crítica da realidade socio-cultural em que o trabalho estará inserido, e não se preocupar muito com resultados imediatos, mas ter uma certa paciência pedagógica, ir avaliando e monitorando cada passo dado." (CARNEIRO, 2011)

Planejar é buscar conciliar os meios possíveis para se alcançar um objetivo. Sem o planejamento, o objetivo até pode ser alcançado, mas a possibilidade de êxito diminui muito. Mesmo na atividade docente, onde a imprevisão é marco peculiar temos que planejar, temos que fazer da nossa aula um improviso planejado, no sentido que esperamos pelo inesperado, para construir a habilidade de bem desempenharmos a nossas funções em um ambiente tão instável, onde muitas forças atuam e determinam o resultado do trabalho.
O planejamento do ensino acontece em diversos níveis: há o planejamento dos sistemas de ensino, passando pelas unidades educativas (no nosso caso as faculdades ou universidades), até o trabalho do professor no dia a dia da sala de aula.
A nível macro temos o Plano Nacional de Educação, o que está em vigar foi realizado para planejar o decênio 2011-2020. Este plano prevê 10 diretrizes objetivas e 20 metas, seguidas das estratégias específicas de concretização, abrange os vários níveis de ensino, desde a educação infantil até a pós-graduação. Quanto ao Ensino Superior, o plano traz duas metas e suas respectivas estratégias:
Assim, percebemos que o ato de planejar não é específico do professor, antes dele muitas pessoas se dedicam a tarefa de planejar o ensino. Também as Instituições de Ensino se dedicam ao ato de planejar e elaboram o PPC (Projeto Pedagógico do Curso).
O PPC, Projeto Pedagógico de Curso, é o instrumento de concepção de ensino e aprendizagem de um curso e apresenta características de um projeto, no qual devem ser definidos a Concepção do Curso, sua Estrutura (Currículo, corpo docente, corpo técnicoadministrativo e infra-estrutura.), os procedimentos de avaliação dos processos de ensino e aprendizagem e do curso e os Instrumentos normativos de apoio (composição do colegiado, procedimentos de estágio, TCC, etc.). É o momento que a instituição, seu colegiado, composto normalmente pelos diretores, membro do corpo docente, do corpo discente e funcionários, param para pensar sobre o curso que desejam realizar.
Por fim, também cabe ao professor a tarefa de planejar, para tanto é preciso que o professor reflita sobre sua atividade. Não se planeja bem sobre o que não se conhece, assim é preciso refletir sobre a sua sala de aula, sobre o seu ambiente de trabalho, para saber o que poderá, realmente dar certo para propiciar uma aprendizagem adequada aos alunos.
A atividade de planejar é uma das atribuições da docência, não é algo optativo, nem deve ser considerado como atividade secundária. Assim, planejar é preciso!!!

Referências:
CARNEIRO, Vera Maria Oliveira. Planejamento: um vai-e-vem pedagógico. Disponível em: http://www.moc.org.br/download/plan_vaivem.pdf. Acesso em: 12 Dez. 2011.
CURY, Augusto Jorge. Pais brilhantes – professores fascinantes. Rio de Janeiro: Sextante, 2003.
PADILHA, R. P. Planejamento dialógico: como construir o projeto político-pedagógico da escola. São Paulo: Cortez; Instituto Paulo Freire, 2001.

14 de out. de 2011

Pelo Dia do Professor

Dizer que a profissão de professor é uma missão difícil, que mereceria maior reconhecimento, que vive uma crise, é repetir um antigo discurso que, apesar disto, é muito atual.
Mas não vou falar do dia do professor em tom triste, vou falar da alegria de estar em sala de aula, poder partilhar meu dia com meus alunos e encontrá-los nos corredores, de reencontrar ex-alunos que sorriem e me cumprimentam como se tivessem acabado de sair da minha aula.
Ser professor é influenciar vidas para além dos muros da instituição, é realizar uma atividade eivada de situações inusitadas, que requerem um jogo de cintura digno de um contorcionista.
Ser professor é saber que a amizade é algo bem vindo, mas nossa missão primeira não é agradar o aluno, é levá-los a uma situação em que a aprendizagem possa ser facilitada, e por vezes o rigor e medidas pouco simpáticas precisam ser tomadas.
Ser professor não é buscar a unanimidade, mas usar o conflito a seu favor. Neste sentido, busco todo dia, ser uma professora e me espelho nos exemplos dos meus professores, dos meus colegas de profissão.
Aproveito então para parabenizar todos os professores que fizeram e fazem parte da minha vida. Grata pela formação do meu caráter e pelo exemplo!

Como presente as palavras de Rubem Alves:
"Ensinar é um exercício de imortalidade.
De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra.
O professor, assim, não morre jamais"

16 de set. de 2011

Professor, um intelectual.


Lendo Giroux, deparei-me com uma afirmação que por alguns momentos tirou-me a concentração do texto, e fez-me divagar, fazendo o pensamento ir além das letras e chegar a minha prática enquanto professora, enquanto intelectual. Vejam que diz Giroux:

Os professores precisam desenvolver um discurso e conjunto de suposições que lhes permita atuarem mais especificamente como intelectuais transformadores. Enquanto intelectuais, combinarão reflexão e ação no interesse de fortalecerem os estudantes com as habilidades e os conhecimentos necessários para abordarem as injustiças e serem atuantes críticos comprometidos com o desenvolvimento de um mundo livre da opressão e exploração.

O professor de direito é um técnico por sua formação, mas precisa ser um intelectual, alguém que reflete sobre o conteúdo da sua disciplina, a sua prática docente e a influência que exerce em relação a seus alunos. Mesmo com as críticas em relação à realidade do ensino jurídico atualmente, os alunos respondem (nem todos, é verdade, mas muitos respondem) aos estímulos do professor em sala de aula. E considerando as competências que Masetto indica como necessárias para o professor (Competência técnica, pedagógica e política), cabe ao professor levar seus alunos a refletir, não apenas a dominar um conteúdo, como se o processo de aprendizagem fosse absorver o conteúdo como verdade absoluta.
Esta prática reflexiva é perigosa, porque o aluno passa a questionar o próprio professor, mas é necessária, se o nosso objetivo é formar profissionais autônomos e capazes de refletir e transformar a realidade circundante.
Mas são só pensamentos, reflexões, que certamente vão me ajudar a mudar e desenvolver meu fazer docente, porque como nos ensina Giroux:

Para os professores isso significa examinar seu próprio capital cultural e examinar o modo no qual se beneficia ou prejudica os estudantes.

Obras citadas:
GIROUX, Henry A. Os professores como intelectuais: rumo a uma pedagogia crítica da aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
MASETTO, M. T. Competência pedagógica do professor universitário. São Paulo: Summus Editorial, 2003.

 Ahhh a vida! Quando eles eram pequenos eu escrevia crônicas de suas peraltices, a saga de levar e pegar no colégio,  as perguntas inusitada...