7 de abr de 2016

Um presente no dia dos Professores: Conselhos de Parini

Impressionou-me vivamente a narrativa de vida profissional do Professor de Língua Inglesa Jay Parini, que leciona no Middlebury College, em Vermont, no seu livro “A Arte de Ensinar”. Talvez a surpresa com a leitura agradável decorra do preço módico do livro, comprado em uma promoção, dessas de liquidação mesmo, mais pelo título do que por qualquer outro motivo. Mas a surpresa foi muito boa. Muitas de suas lições, com certeza, vão ser minhas companheiras daqui por diante. Aconselho a leitura, principalmente para os docentes, ou para aqueles que pretendem enveredar pelo universo da academia, e podem ter certeza que, de maneira nenhuma, será perda de tempo.
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Pensei inicialmente em falar, este mês em que comemoramos o dia do professor, das grandes dificuldades que os professores do ensino superior atravessam (tanto aqueles que atuam nas faculdades privadas, quanto aqueles que exercem a docência nas universidades públicas), e vejam que teríamos muito a discutir, porque as dificuldades não são poucas. Mas refreei este primeiro impulso porque o momento é de festa, mesmo que também seja de reflexão. Retomei a leitura da obra de Parini, detive-me em um capítulo intitulado “Carta a Um Jovem Professor”, em que o autor busca aconselhar aqueles que iniciam na profissão para facilitar-lhes o percurso da carreira, tanto que finda a carta dizendo: “Queria que alguém tivesse me enviado essa carta, e que a tivesse lido, há cerca de 30 anos. Teria facilitado um pouco a minha vida, então”, e por ocasião das comemorações que se avizinham, decidi refletir seus conselhos. E presentear os professores com as palavras deste velho professor. Vamos a Parini:

“Você tem que ensinar a partir da pessoa que você é”
Uma das principais ferramentas do professor é o autoconhecimento, precisamos saber quem somos, de onde falamos, quais nossas referências.  Gil (2010) enumera 27 papéis diferentes que o professor assume quando da realização de seu trabalho e um deles é ser “pessoa”, é ter consciência que possui valores e interesses que influenciam a sua atuação em sala de aula, e o autoconhecimento é essencial para que possa atender ao apelo do pedagogo americano Amos Bronson Alcott: “O verdadeiro professor defende os seus alunos contra a sua própria influência.” Para mim, pelo menos, o professor não devia querer que seus alunos pensem como ele, se ajustem às suas ideologias, mas ao contrário, deve incentivar o pluralismo e o respeito à divergência. Para tanto, é preciso que o professor realize uma imersão em si mesmo e tenha um controle muito consciente da sua forma de ser e pensar. Assim poderemos atender ao conselho de Parini: “seja você mesmo, porém crie em cima dessa noção, adicione a você mesmo, some a si mesmo, amplie-se”.

“Você deve levar o seu trabalho - tanto como professor quanto como erudito - a sério.”
O espaço do professor é bem maior que a sala de aula, somos professores 24 horas por dia. Tanto que, às vezes, nossos alunos confundem isto. Recentemente ouvi uma professora se queixando que um aluno lhe pedira seu telefone porque iria usar um feriado prolongado para se dedicar a seu Trabalho de Conclusão de Curso e queria ligar-lhe se tivesse qualquer dúvida, “será que eles não pensam que também temos que nos desligar um pouco?”. Nossos alunos nos veem tão parte da vida deles que avançam em terrenos que eles mesmos depois percebem que não deveriam ter adentrado.
Esse exemplo só demonstra que somos professores sempre e que precisamos nos preparar para tanto, do ponto de vista técnico (na área que ensinamos), do ponto de vista pedagógico (na área da docência), mas também considerando o fato de que somos percebidos por nossos alunos como pessoas eruditas, na melhor acepção da palavra, então temos que fazer jus a este status.
As nossas leituras devem nos levar a lugares em que seremos pioneiros, para que nossos alunos nos acompanhem e consigam sair da “Caverna” que o mundo moderno nos enclausura. Mas devemos tira-los da Caverna, convidá-los a sair, porque se nosso objetivo for tão somente fazer o anúncio da boa nova, poderemos cair no risco que Platão fala pela boca de Sócrates: “Assim, ele, por amor, voltaria à caverna a fim de libertar seus irmãos do julgo da ignorância e dos grilhões que os prendiam. Mas, quando volta, ele é recebido como um louco que não reconhece ou não mais se adapta à realidade que eles pensam ser a verdadeira: a realidade das sombras. E, então, eles o desprezariam...”

“O melhor caminho para conseguir que os alunos compareçam às suas aulas com verdadeiro sentido de compromisso é fazer da sala de aula um lugar onde boas coisas acontecem”
Este ensinamento de Parini me acompanha toda vez que penso na forma de organização de um conteúdo para trabalhar com meus alunos. É certo que nem sempre a aula é leve, muitos fatores interferem no nosso fazer docente, mas o esforço por fazer da sala de aula um espaço agradável é sempre bom. Cada professor desenvolve sua própria estratégia, mas eu adquiri, com o tempo, a habilidade de contar anedotas, narrar detalhes autobiográficos que envolvam o conteúdo da aula (mesmo que, no meu caso, tenha que trabalhar Direito Penal). Outro dia mesmo, a turma irrompia em gargalhadas quando discutia com eles o conceito e os tipos de Crime Impossível, uma aluna até falou: “Professora, como é que pode a gente rindo tanto de um assunto tão pesado.” Mas as coisas devem ser trabalhadas com leveza, porque tudo fica mais fácil de ser compreendido se não colocamos tantos complicadores.
Parini traz muitos outros conselhos em seu livro, e a riqueza de suas palavras devem ser partilhadas e vivenciadas por todos os professores, não só os iniciantes. E neste dia dos professores, em que os alunos lembram-se de nós com carinho, refletirem sobre nossa missão deve ser sempre nossa maior festa e este carinho nosso maior presente.
A todos os docentes um encantador “seu dia” e a nossos alunos, desejo sempre excelentes professores!

Referências:
GIL, Antonio Carlos. Didática do ensino superior. São Paulo: Atlas, 2010.
PARINI, Jay. A arte de ensinar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
PLATÃO. República. Rio de Janeiro: Editora Best Seller, 2002.

Publicado originalmente em:  http://www.parlatoriojuridico.com.br/parlatoriojuridico/pagina/89